14/05/2010
Araçatubemo-nos!
O verbo araçatubar-se foi criado por uma lídima filha de Araçatuba, a professora, escritora, membro da Academia Araçatubense de Letras Marilurdes Martins Campezi, a nossa queridíssima Lula.
Araçatube-se! É o título do último poema do livro que ora lhes apresento: PORTA-RETRATO, publicado em 1995 pela Academia de Letras, com belo prefácio da professora Sarah Barbosa.
Poematizada com muito amor, retratada com as lentes coloridas de alguém que aqui nasceu e vive até hoje, Araçatuba inteira está presente nesses foto-poemas que o talento de nossa amiga Lula encheu de beleza e emoção: : “O vidro fino e brilhante que protege este retrato deixa ver na transparência minh`alma araçatubense”. Na moldura, os instantâneos que sua retina sensível de poeta guardou, uma viagem no tempo e no espaço, com passos leves e atentos, “entre boiadas e cafezais, brancos e floridos algodoais (...) verdes punhais de canaviais”. E vão desfilando ante nossos olhos conhecidos recantos que seus pés infantis pisaram, seu coração adolescente amou e sua sensibilidade adulta captou e coloriu com pinceladas de pura poesia. “A rédea, o laço, o rodeio, no touro lasso, o cansaço”. Em vôos artisticamente traçados pela terra outrora do asfalto, ouvimos os últimos ecos da banda no coreto da Rui Barbosa; presenciamos a estátua ainda intacta “séria e retórica, assentada na coluna de pedra polida” da Getúlio Vargas; acompanhamos o “rush”das bicicletas, hoje bem mais agitado pelas estridentes e velozes motos; e levamos o olhar para os “arranha-sóis”que agora se multiplicaram; o então “intacto Baguaçu, tão constante e sereno”, onde ela solta o anzol da infância; o “footing”, que a moçada de hoje não conhece, mas nossa juventude fixou indelevelmente; o Araçatuba Clube dos bailes de outrora, onde “vestidos de bolo bailavam formaturas em noites puras”. E o Esporte Clube Corintians, o dos Bancários, o Nipo, a piscina do Safioti, lugares vários de festa e diversão. E os nas telas do Cine Paroquial, do São Francisco, do Bandeirantes e do São João, que os ventos levaram quando os vídeos saltaram para o sofá e invadiram a sala das casas; para um ultimo documentário, “a tela do Cine Pedutti, excluída e solitária”.
A Igreja Matriz, a Metodista, a Maternidade Santa Terezinha e a bela Associação Comercial, destruídas sob os mais variados e alguns descabidos pretextos; os trilhos da Maria –Fumaça, as lojas da Marechal, os bares e sabores da Avenida Brasília, a Cussy, o alto da Saudade, de onde “Araçatuba dá um salto para a eternidade”; a Avenida Pompeu, em que “um sisudo caminhante percorre acelerado o ladrilho da calcada”. Lá está o Bola Sete, que “venceu o tempo, o copo, o prato”. E o boteco do Intec, que há muito deixou de existir.
É preciso ver esse Porta-Retrato, essa jóia da genial Lula. Quem nasceu aqui vai se deliciar e morrer de saudade. Quem chegou depois vai conhecer um pouco mais desta centenária senhora que, apesar de alguns pesares, ainda nos faz vibrar de amor e carinho por sua inesquecível história.
CIDINHA BARACAT