Poesias

PASTORA DE NUVENS

14/05/2010


Pastora de Nuvens

 

                               

               Ao nascer, em novembro de 1901, já não tinha pai; com três anos, perde também a mãe. Essa infância órfã e solitária marcará profundamente a vida e a obra de uma das mais sensíveis e férteis escritoras deste país: Cecília Meireles.

               A nítida consciência de que tudo é passageiro e a ânsia de absoluto constituem a tônica de seus sonoros e coloridos versos, bem como o contorno de sonho e beleza que emoldura suas crônicas.

               Ainda que perpassada de tristeza e melancolia, sua visão de mundo jamais foi trágica e pessimista. Aceita e cumpre com amor a missão que lhe cabe: poetizar o mundo e a vida, cantar a dor e a saudade, o vazio e a plenitude, inundando de luz a natureza e tudo o que nela pulsa. Por saber fugaz e ilusório cada minuto da existência, vive-o intensamente:

                                   “Eu canto porque o instante existe

                                   e a minha vida está completa.

                                   Não sou alegre e nem sou triste:

                                   sou poeta.”

 

               Filtra e transcende a realidade, com a vibração de sua alma inquieta e plena de sensações; cria e recria imagens de pura beleza, num processo contínuo de transmutação da arte.

 

                                   “Entre mim e mim, há vastidões bastantes

                                   para a navegação de meus desejos afligidos.”

 

               Sabe que a palavra é seu escudo, sua força e salvação, e faz dela o cajado com que pastoreia seu rebanho vário e multifacetado, composto de imagens fluidas e símbolos instáveis, como são, aliás, nossos sonhos e projetos.

 

                                   “Pastora de nuvens, fui posta a serviço

                                   por uma campina tão desamparada

                                   que não principia nem também termina,

                                   e onde nunca é noite e nunca madrugada.”

 

               Sente-se, às vezes, só e cansada. Percebe a fragilidade humana e sabe ser o tempo o grande predador, que tudo corrói.  Do conflito entre a realidade efêmera e a alma que anseia o infinito, nasce a certeza de que é impossível perpetuar o que quer que seja. E ante a desolação impotente, constata e pergunta, perplexa:

 

                                                                       “Eu não dei por esta mudança,

                                   tão simples, tão certa, tão fácil:

                                   __ Em que espelho ficou perdida a minha face?”

               Outra não é nossa própria e freqüente indagação, ante a inexorabilidade do fluxo ininterrupto de surpresas e mudanças  que a vida constantemente nos oferece, como incentivo ou desafio,prêmio ou castigo..

               Certamente você, leitor, já percebeu que, às sextas feiras, este espaço é ocupado por textos que têm por tema a Literatura, com os vultos e obras mais representativos dessa arte que cabe a nós, membros da Academia Araçatubense de Letras e estudiosos da linguagem difundir e preservar, como eternos pastores de nuvens e de sonhos. Às vezes, como Cecília Meireles , sem saber se  conduzimos ou se apenas  acompanhamos o nosso tão disperso rebanho..

 

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