Poesias

DESDOBRÁVEL

14/05/2010

                                                                     DESDOBRÁVEL

 

           “Quando nasci, um anjo torto desses que vivem na sombra disse: Vai, Carlos! Ser gauche na vida.”

 

            Assim começa o “Poema de Sete Faces”, de Carlos Drummond de Andrade, poeta mineiro de Itabira.  A palavra francesa em destaque significa esquerdo, e traz no poema  a conotação de diferente,  fora do comum; introduz na literatura a noção de gauchismo, que condiz plenamente com a obra drummondiana, no que ela tem de inovadora e revolucionária. O anjo de Drummond era torto e vivia na sombra. Isso em 1930.

Quarenta e poucos anos mais tarde, Adélia Prado, escritora também mineira nascida em Divinópolis, parafraseia Drummond no poema “Com Licença Poética”, de sua obra inaugural, “Bagagem”:

            “Quando nasci um anjo esbelto, desses que tocam trombeta, anunciou: vai carregar bandeira. Cargo muito pesado pra mulher, esta espécie ainda envergonhada.”

O anjo anunciador de sua missão não é torto, e sim esbelto; tampouco vive na sombra, já que traz com voz de trombeta o seu destino de participação e luta, pesado para uma mulher, na época ainda bastante reprimida e censurada. Logo adiante ela afirma, no mesmo poema: “O que sinto escrevo. Cumpro a sina.” Sina de quê? De ser mulher? De carregar bandeira? De ser poeta? Adélia cumpre todas elas, com talento e dignidade. Poetiza os mais singelos atos do cotidiano feminino, numa perfeita comunhão com os seres e as coisas, materiais e espirituais. Nada recusa, nada banaliza.

Ainda remetendo ao mesmo texto: “Minha tristeza não tem pedigree; já a minha vontade de alegria, sua raiz vai ao meu mil avô.”Para Adélia, estar no mundo é vivê-lo, com suas tristezas e alegrias. Os momentos tristes, ela os vê como necessários e inevitáveis, mas não lhes dá grande importância : eles não têm raiz nela, não a integram. A alegria, porém, está no seu código genético, integra seu corpo e seu espírito. Alegria de ser mulher, alegria de fazer poesia, de aceitar e cumprir seu papel, alegria de viver, enfim.

 E assim finaliza o seu texto: “Vai ser coxo na vida é maldição pra homem.

 Mulher é desdobrável. Eu sou.”

 No seu diálogo intertextual com Drummond, ela recusa um caminho pré-traçado, seja ele “gauche”ou “droit “, para aceitar em plenitude a condição humana, com suas exigências e imprevistos. O adjetivo desdobrável, inerente ao perfil psicológico feminino, completa sua aceitação do universo no qual está inserida e dispensa explicações. É a própria dinâmica do cosmos: em permanente movimento, requer disponibilidade, flexibilidade, mudança.

 É o que, com outras palavras, ela diz no poema “Sensorial”: “Procuro sol, porque sou bicho de corpo. Sombra terei depois, a mais fria.” E completa, no poema “ Invenção de um modo”: Entre paciência e fama quero as duas, para envelhecer vergada de motivos.”

 Assim é Adélia Prado. Assim é a Poesia. Assim somos nós.


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