14/05/2010
B U Q U Ê D E H A I C A I S ( saudação à Primavera)
O haicai é um pequeno e gracioso poema nascido no século XVI no Japão, onde teve como principal cultor o poeta Matsuo Bashô. Introduzido no Brasil no século XX, aqui encontrou muitos admiradores e estudiosos, entre os quais se destaca Masuda Goga (1911-2008), jornalista, escritor e artista plástico, que em 1987 ajudou a fundar o Grêmio Haicai Ipê. Em 2004, recebeu o “Masaoka Shiki International Haiku Prize”, por seu esforço na divulgação do haicai no Brasil. ( www..kakinet.com ).
O haicai clássico japonês obedece a algumas regras:
* 17 sílabas poéticas, distribuídas em três versos de 5 – 7 – 5, respectivamente, com ou sem rima;
* alusão à natureza ( diferente da natureza humana);
* “kigô”, referência a uma das quatro estações;
* menção a um evento particular (sem generalizações);
* apresentação de tal evento como “acontecendo agora”, nunca no passado.
No transplante do haicai para outros países, essas regras foram mantidas com maior ou menor fidelidade, dependendo do poeta e de seu estilo.
Sentir, definir e expressar o efêmero e sutil encantamento de um instante, num delicado exercício de concisão, sensibilidade e fusão cósmica, eis a essência do haicai: registrar a percepção fugidia de uma imagem que mal se delineia e já se dilui no tempo e no espaço. O exercício do haicai fortalece em nós a certeza de que tudo é transitório, nada permanece para sempre; mas também nos lembra de que tudo está ligado a tudo e cada movimento produz efeitos no todo. Busca despertar o que há de elevado, comovente e belo nas pessoas e demais seres do universo, que transcende o mero culto das aparências. É, enfim, um exercício de espiritualidade.
Ofereço aqui uma dúzia deles, em carinhosa homenagem à querida e saudosa amiga Shizuka, há dois anos chamada para cuidar das flores dos jardins de Deus.
Com passo de espera,
De guarda-chuva florido
Chega a primavera.
Ao beijo singelo
Do vento, o ipê se despe
Sorrindo amarelo.
Na relva macia,
Enquanto o grilo cochila,
A cigarra chia.
Grita o bem-te-vi:
Não abra tanto essas pétalas!
Eu estou aqui.
Mamãe, posso abrir?
Pede o nenê botãozinho.
E a rosa só ri.
Meu Deus, quanta flor!
Vou morrer de overdose,
pensa o beija-flor.
Com pingos que caem
No lago, a chuva compõe
Gracioso haicai.
Abraçada ao muro
A trepadeira sussurra
Segredos no escuro.
Voejando ao léu
Lá vem a pesada abelha
Grávida de mel.
Roxa de vergonha
Ante o lúbrico antúrio,
A violeta sonha.
Este muro é meu,
Diz a hera ao gato preto.
Vá trepar no seu!
A aranha peluda
Prende em sua malha fina
A abelha abelhuda.
CIDINHA BARACAT