Poesias

CORA, CORAÇÃO, CORAGEM

14/05/2010


                   CORA, CORAÇÃO, CORAGEM

                  

           Nem sempre a mulher pôde escrever e publicar suas ideias, sentimentos e emoções. Essa era atividade reservada exclusivamente aos homens, detentores absolutos do honroso posto de cultores da ciência e senhores da razão. A elas se reservava o anonimato e o silêncio quase absoluto. Quem fugisse a esse estereótipo era alvo de veementes e furiosas críticas e perseguições. Por isso, raras foram as que ousaram desafiar tais códigos de conduta. Acorrentadas à ignorância e ao medo, sufocaram sonhos, abafaram anseios, deixaram-se amordaçar. E muitas acreditaram que justamente nessa anulação estava a sua grandeza. As poucas que se aventuraram a escrever e expor suas opiniões adotaram pseudônimos, alguns dos quais masculinos, subterfúgio que as colocava a salvo das retaliações dos incomodados e do repúdio da família patriarcal e  repressora.

              Assim foi com Ana Lins dos Guimarães Peixoto Bretas, nascida a 20 de agosto de 1899 em Goiás Velho. Nome comprido e pesado, com as cargas patriarcal e marital somadas e reduzidas a um só termo: autoritarismo. Nome que ela substituiu pelo de Cora Coralina. Cora, coração; Coralina, vermelho. Coração cheio de amor, vibrante de coragem e otimismo, quente de paixão pela vida. Adotou o pseudônimo aos 15 anos, ao publicar no jornal seu primeiro poema, para que a família não lhe identificasse a autoria.

              Muito cedo saiu da escola. Mulher não precisava desses luxos. Para cumprir o único destino reservado a ela e às demais, o casamento, necessário era saber cozinhar, lavar, passar, engomar, bordar, parir e criar filhos. E tudo isso ela fazia muito bem. Ler e escrever não eram atividades a que uma mulher bem criada devesse dedicar-se. Mas ela o fazia também, às ocultas e com muita paixão.

              Só aos 76 anos viu publicada sua primeira obra: “Poemas dos Becos de Goiás e Estórias Mais”.Seguiram-se “Meu Livro de Cordel”, “Vintém de Cobre: Meias Confissões de Aninha,  “Os meninos Verdes”, “Estórias da casa velha da ponte”.        

              Depois de enviuvar, residiu em Penápolis e Andradina. Foi doceira, cozinheira, dona de pensão, lavradora. Plena de vida e otimismo, essa corajosa mulher, que esteve sempre à frente e acima de seu tempo, representa condignamente a grandeza da alma, da sensibilidade e da força feminina de todos os tempos e lugares. Telúrica, cósmica, mística, sábia. Humilde, sobretudo. Fez de seus versos a oração do menor abandonado, do pequeno delinquente, do presidiário, da lavadeira, do lavrador, da prostituta, de um imenso contingente de despossuídos, perseguidos e massacrados.

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