Poesias

NAS ASAS DO CONDOR

14/05/2010


N A S   A S A S   D O   C O N D O R

 

No dia 14 de março de 1847, no município de Curralinho, hoje Castro Alves, estado da Bahia, nascia Antônio Frederico de Castro Alves. Durante sua curta vida, viveu intensamente, amou e foi amado, fez versos vibrantes em defesa do amor e da liberdade, publicou “Espumas Flutuantes” e deixou vários escritos inéditos.

Seus versos transcenderam os limites da poesia subjetiva romântica, abrangendo os horizontes mais amplos da realidade social. Cantou o amor, a mulher, a morte e o sonho; cantou a República, o Abolicionismo, a igualdade, as lutas de classe, os oprimidos. Mas como bem lembra Jorge Amado no livro “ABC de Castro Alves”, a maior de suas noivas foi a LIBERDADE.

Hoje, o amor e a liberdade continuam sendo a meta desejada ardentemente. As injustiças sociais continuam. A escravidão do corpo e do espírito é ainda um borrão de tristeza a macular o mundo. Por isso Castro Alves continua vivo. Onde houver alguém a defender a cultura e a expansão do livro, aí estará ele a bradar:

                     “Oh! Bendito o que semeia

                      Livros, livros à mão cheia

                      E manda o povo pensar...”

Toda vez que o amor fizer tremer em anseios de ardente desejo um coração apaixonado, ele estará sussurrando versos quentes e ousados:

 

                   “Mulher do meu amor! Quando aos meus beijos

                   Treme tua alma, como a lira ao vento,

                    Das teclas de teu seio que harmonias,

                   Que escalas de suspiros bebo atento!

Quando um gemido triste de desalento nos envolver, coroando a desilusão de quem buscou a glória e se feriu na estrada, ele estará presente com seu canto de desencanto:

 

                   “Sinto que do viver me extingue a lampa...

                   Resta-me agora por futuro – a terra,

                   Por glória – nada! _ , por amor _ a campa!”

Quando o grito lancinante do corpo acorrentado pelo ódio dos dominadores se elevar ao mais profundo de uma alma aflita e a mente implorar por justiça e liberdade, mais que nunca ele aí estará, imenso, belo, invencível, a clamar seu brado de revolta, a elevar sua “musa libérrima, audaz” para salvar os humildes da sanha dos poderosos.

 

                   “A  praça! A  praça é do povo

                   Como o céu é do condor.

                   É o antro onde a liberdade

                   Cria águias em seu calor”

E foi sonhando com a liberdade dos negros que seus versos alcançaram as maiores alturas, pois neles se encontram, admiravelmente fundidas, a efusão lírica e a eloquência condoreira, como bem atestam as poesias “Vozes d’África”, “Canção do Africano”, “Saudação a Palmares”, “Tragédia no Lar” (de grande carga dramática e emotiva) e “Navio Negreiro”, poema épico de rara beleza em que se retrata o horror do sofrimento dos escravos e se convida o país a se envergonhar e apagar a mancha da escravidão.

 

               “ Existe um povo que a bandeira empresta

                 P’ra cobrir tanta infâmia e cobardia!...”

Em julho de 1871, no mesmo estado da Bahia, com apenas 24 anos, morria o “Poeta dos Escravos”. Dezessete anos depois, no dia 13 de maio de 1888, a Princesa Isabel assinou a Lei Áurea, que pretensamente libertava os escravos do jugo da escravidão. Certamente os poemas e os sonhos de Castro Alves colaboraram para esse passo histórico. Como ele mesmo afirmava, “a poesia é um sacerdócio – seu Deus, o belo – seu tributário, o poeta”. E acrescentava: “para chorar as dores pequenas, Deus criou a afeição; para chorar a humanidade, Deus criou a poesia.”

 

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