14/05/2010
COM PALAVRAS ... SEM PALAVRAS
Por favor, uma palavrinha! Não tenho palavras...Peço a palavra! Você não tem palavra... Palavra de honra! Não sou homem de meias palavras...Não me corte a palavra! Já lhe dei minha palavra...Meça suas palavras! Não ponha palavras na minha boca! Você me tirou a palavra da boca... Engula suas palavras! É sua última palavra?
Com a palavra me enleio, me embaralho, balbucio, tartamudeio. Quero dizer o que penso, o que sei, o que sinto, e ela me falta, me desafia, me provoca, negaceia, trapaceia. Quero uma, vem a outra. Fica sempre uma lacuna, alguma coisa por dizer. Ou dito inadequadamente. “Não foi isso que eu quis dizer,,,”Mas foi isso que você disse! Então fica o dito pelo não-dito... Mas o não-dito já foi dito! Com todos os fonemas, e eles não retornam. Quantas vezes eu quero, posso e devo falar, mas não o faço. Por medo, timidez, orgulho, incúria, descaso. Palavras de alerta, consolo, apoio, incentivo, perdão. Que vou passar o resto da vida ruminando e morrer com elas entaladas na garganta.
Com a palavra extrapolo, exorbito, exagero. Digo mais do que preciso, crio hipérboles esdrúxulas para enfatizar a raiva, o aperto no peito, o frio no estômago, a gota que falta, o grito que salta, o eixo que solta, o saco que estoura, o lixo que rola no ralo do reles rancor e explode na galhofa, na ironia, no sarcasmo. Na enxurrada de veneno com que destilo a ira, o medo, o ciúme, a inveja, os recalques, o cinismo, enfim, as toxinas com que disfarço minha insegurança e tento compensar minhas frustrações. Para quê? Para mostrar que não tenho sangue de barata nem engulo desaforo. E que comigo ninguém tira farinha, o que quer que isso signifique. Ou para arrepender-me e sofrer depois, com vontade de voltar no tempo, sair correndo atrás das palavras, recolhê-las e engoli-las juntamente com as lágrimas de remorso e arrependimento que alguns momentos de paciência, reflexão e humildade teriam perfeitamente evitado. “Ai palavras, ai palavras, que estranha potência a vossa!”, nos diz Cecília Meireles.
E assim, por falta ou excesso, pareço estar sempre me relacionando canhestramente com as palavras. No entanto, preciso delas para dar corpo e vida aos meus anseios, pensamentos, ideias e sentimentos, para promover a comunicação imprescindível à vida em sociedade.
Há momentos, todavia, em que elas se tornam totalmente inúteis, absolutamente dispensáveis, ridículas até. Uma grande e profunda emoção, de felicidade ou de sofrimento, dispensa qualquer manifestação verbal, por absoluta ineficiência. Quando sobre nós se abate uma tragédia, a dor e a angústia nos tomam de assalto e nada parece fazer sentido no caos que se instala. O espírito retorna ao pré-verbal, estado de pura emoção. Só a força do silêncio nos permite sentir e viver o horror apocalíptico das cegas, surdas e mudas fatalidades.
CIDINHA BARACAT