Poesias

O CISNE NEGRO

14/05/2010

O Cisne Negro

 

            Em março de 1898, procedente de um povoado mineiro, chegava ao Rio de Janeiro, num vagão destinado ao transporte de animais e ainda fora do esquife, o corpo do maior poeta brasileiro do Simbolismo: João da Cruz e Sousa, negro sem mescla nascido em Florianópolis no dia 24 de novembro de 1861. Tinha 36 anos de vida e séculos do sofrimento físico e moral que a ignorância, a estupidez e o preconceito têm impingido ao seu povo. Toda sua vida fora, até então, permeada pelo mesmo estigma, velado ou explícito, de discriminação e rebaixamento.

            Tivera, no entanto, nome, sobrenome e educação esmerada, recebidos do nobre casal que alforriara seus pais biológicos. Aprendeu francês, latim e grego, além de ter sido discípulo do alemão Fritz Müller, que lhe ensinou Matemática e Ciências Naturais. Esse refinamento intelectual, todavia, em lugar de minorar-lhe o sofrimento, tornou mais nítida e dolorosa a consciência da injustiça e da exclusão social que enfrentou após a morte de seus protetores.

            Seus textos, marcados pela musicalidade e misticismo, sensualismo e a nebulosidade próprios do estilo simbolista, deixam também entrever uma certa obsessão pela cor branca e pela transparência, como  se procurasse, nos versos, a catarse e a transcendência para a dor do segregado e a tortura do gênio marginalizado.

            Sempre leu muito, praticamente todos os grandes escritores da época. Militou contra a escravidão fundando jornais e proferindo palestras, em várias capitais, juntamente com outros abolicionistas. A rejeição nos meios literários e na imprensa alimenta sua mágoa, que alimenta seu verso: “Ódio são, ódio bom, sê meu escudo!” E pergunta, aflito: “Qual é a cor da minha forma, do meu sentir?”

            Em 1884, é nomeado promotor de Laguna, mas teve sua nomeação impugnada pela violência do preconceito dos políticos locais. Casa-se com Gavita, também negra, com quem tem quatro filhos, dois dos quais morrem ainda na infância. Tanta dor enlouquece Gavita, que se aliena em rezas e ladainhas incompreensíveis. Dois anos antes da morte da amada, com a saúde abalada pela tuberculose, doença que lhe causou enorme sofrimento, parte o “Dante Negro”, ou “Cisne Negro”, como foi cognominado, causando profunda comoção na intelectualidade da época. Seu nome só bem mais tarde alcançaria a glória.

            Suas obras Missal, Broquéis, Últimos Sonetos e Evocações não foram suficientes para satisfazer seu pedido: “Era mister que me deixassem ser livre no Silêncio e na Solidão. Que não me negassem a necessidade fatal, imperiosa, ingênita, de sacudir com liberdade e com volúpia os nervos e desprender com largueza e com audácia o meu verbo soluçante, na forma impetuosa e indomável da Vontade”.

            Teu sonho, caro Poeta, vem sendo concretizado por teus irmãos, que hoje comemoram o dia da Consciência Negra, dignificando e enobrecendo teu nome e tua luta. Descansa em paz!


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