14/05/2010
PALADINO DA UTOPIA
Brancas as vestes e a vasta cabeleira revolta, cara de índio e jeitão de profeta, caminha recitando versos de Bandeira, Drummond e Neruda aos macacos, aos pássaros e ao vento, o poeta da liberdade, da ecologia e da paz: Amadeu Thiago de Mello. No pedaço mais verde do planeta, na pequena cidade de Barreirinha, à margem do rio Paraná do Ramos, braço do Amazonas, onde nasceu e quer morrer, vive o homem que teve a ousadia de escrever “Os Estatutos do Homem”, decretando, em 13 artigos, “o reinado permanente da justiça e da liberdade”.
Ardoroso defensor dos direitos humanos, foi empurrado para o exílio pela ditadura militar. No Chile, onde quase foi fuzilado, conheceu Pablo Neruda, com quem conviveu, cantou e poetou. Voltou em 78 para Barreirinha, “na beira do rio, no meio da floresta, vendo o vento chegar, derramando lembranças pelo caminho, sem jamais perder a esperança”.
Seu tema eterno, o amor: à natureza, à vida, à beleza, em todas as suas modalidades. “Meu compromisso é com a vida do homem, a quem trato de servir com a arte do poema”, diz ele nos versos de “Canto do meu canto”. E acrescenta, em “A Vida Verdadeira”: Não, eu não tenho um caminho novo. O que tenho de novo é o jeito de caminhar”.
Visto por alguns críticos (poucos) como mero panfletista de ideologia quixotescas sem grande expressão estilística, assim se defende o poeta: “Mas dito seja, de uma vez por todas, que nada faço por literatura, que nada tenho a ver com a história, mesmo concisa, das letras brasileiras. Sei que a poesia é um dom, nasceu comigo. Assim trabalho o meu verso, com buril, plaina, sintaxe. Não basta ser bom de ofício. Sem amor não se faz arte”.
Publicou sua primeira obra, “Silêncio e Palavra”, aos 25 anos. A última, “Campo de Milagres” em 99. Entre elas, mais de vinte livros: “Canção do Amor Armado”, “Mormaço na Floresta”, “Faz Escuro mais eu Canto”, “Narciso Cego”, “Toadas de Cambaio”, “Ainda é Tempo”, “Poesia Comprometida com a Minha e a Tua Vida”, entre outros. Exerce intensa atividade social, na Amazônia e em várias outras localidades. Apesar dos 83 anos, não rejeita convites para palestras, seminários e eventos literários.
Ao Diário de Pernambuco, ao publicar o livro “De uma vez por todas”, afirmou: “Acho que cada um de nós, na sua vida cotidiana, na maneira de viver e de conviver com os outros, parte, consciente ou inconscientemente, para uma opção entre o apocalipse e a utopia. Já faz tempo que eu optei pela utopia”.
Para ele, como para todos os artistas, utopia não é o sonho impossível, irrealizável, e sim um sonho que ainda não se concretizou.
CIDINHA BARACAT