14/05/2010
SANGUE NO AR, NA TERRA E NO MAR
A vida inspira a arte, a arte recria a vida. O artista representa com palavras, cores, sons, formas e movimentos o homem e o mundo, filtrando esse universo com sua sensibilidade, moldando-o com seu talento e embelezando-o com suas emoções.
Acostumamo-nos a ver a arte como ficção, recriação fantasiosa, um modo particular de ver e sentir a realidade. Daí dizer-se que a arte imita a vida. Vemos o filme, olhamos o quadro, lemos o romance, assistimos à novela e ao “show”, apreciamos a dança, somos tocados pelas emoções que tais obras nos despertam, sentimos prazer ou horror, mas sabemos que não é de verdade, que tudo vai passar e não nos vai atingir. E que tais cenas jamais se repetiriam na vida real: “coisa de novela”, “só acontece em filme”, pensamos.
Há casos, todavia, em que não sabemos distinguir a ficção da realidade. Tudo se funde, se confunde e nos atinge em cheio. É a vida recriando as grandes tragédias de que até então só a arte se ocupava. Não é filme, não é novela, não é pesadelo. O que parecia produto de uma fértil e talentosa imaginação ali está, diante de nossos olhos e corações estarrecidos. E não há palavras, nem cores, nem sons, figuras ou movimentos capazes de recriar ou sequer aproximar-se do desespero e da angústia de instantes que valem uma eternidade. Artista algum reproduziria o transbordamento da tresloucada realidade. Mais que real. Surrealíssima!
Essas ideias me ocuparam, nesta semana, o inquieto coração. E me trouxeram à mente o texto do grande poeta Jorge de Lima, dedicado ao pintor Cândido Portinari, que aqui reproduzo pelo que tem de belo, triste e dolorosamente real.
O GRANDE DESASTRE AÉREO DE ONTEM
“Vejo sangue no ar, vejo o piloto que levava uma flor para a noiva, abraçado com a hélice. E o violinista em que a morte acentuou a palidez, despenhar-se com sua cabeleira negra e seu stradivárius. Há mãos e pernas de dançarinas arremessadas na explosão. Corpos irreconhecíveis identificados pelo Grande Reconhecedor. Vejo sangue no ar, vejo chuva de sangue caindo nas nuvens batizadas pelo sangue dos poetas mártires. Vejo a nadadora belíssima, no seu último salto de banhista, mais rápida porque vem sem vida. Vejo três meninas caindo rápidas, enfunadas, como se dançassem ainda. E vejo a louca abraçada ao ramalhete de rosas que ela pensou ser o paraquedas, e a prima-dona com a longa cauda de lantejoulas riscando o céu como um cometa. E o sino que ia para uma capela do oeste, vir dobrando finados pelos pobres mortos. Presumo que a moça adormecida na cabine ainda vem dormindo, tão tranquila e cega! Ó amigos, o paralítico vem com extrema rapidez, vem como uma estrela cadente, vem com as pernas do vento. Chove sangue sobre as nuvens de Deus. E há poetas míopes que pensam que é o arrebol.”
CIDINHA BARACAT