14/05/2010
E L O I N V I S Í V E L
Quando leio um poema, livro ou crônica, gosto de imaginar o que teria levado seu autor a produzir aquele texto, o que sentia e pensava no momento da criação, suas angústias e dores, fantasias e temores, euforia ou depressão. Quanto de escavação íntima, consciente ou inconsciente, custou-lhe aquele verso, frase ou enredo, que expõe e às vezes ameniza suas próprias chagas. Que intensas emoções o tomaram ao concluir sua obra? Seria ela bem aceita, recomendada com interesse e entusiasmo, ou rejeitada com repulsa e frio desdém? Algum leitor saberia, ou sequer suporia quanto lhe custara em lágrimas ou sorrisos, felicidade ou desespero, conflitos e desabafos aquele texto, aparentemente impessoal e fictício que seus olhos perpassam, atentos ou distraídos? Quanto do autor está ali, no perfil e na conduta das personagens, que num processo de catarse involuntária extravasam o próprio eu de seu criador, em trejeitos, neuroses e recalques muito mais reveladores do que biografias e análises críticas? Como o autor escolheu as palavras com as quais compôs e retratou ambientes e personagens e quanto essa seleção vocabular revela de sua própria psique e recônditas lembranças?
São perguntas que me fascinam e cujas respostas jamais terei.
Por outro lado, quando escrevo, fico pensando no possível leitor que meu texto atingirá. Quem é, como vive, o que faz, o que sente e o que pensa esse ser, por alguns instantes ligado a mim, numa conexão efêmera e superficial, ou de profunda empatia e cumplicidade? Valoriza ou abomina meu modo de exteriorizar idéias, emoções e pensamentos? Identifica em mim o ser humano que sou, com toda a gama de beleza e complexidade que isso implica, ou simplesmente vê as palavras e seu significado, desligadas de um contexto humano, emocional ou racional?Quantos são os que me lêem? Poucos, muitos, alguns?
São perguntas para as quais também jamais obterei resposta.
Qualquer que seja, porém, sua reação, durante os momentos de leitura estamos conectados. E é por esses momentos, breves ou longos, cheios de emoção ou de mera curiosidade, com vivo interesse ou vazia indiferença, que vale a pena escrever. A obra põe seu autor em comunicação com diferentes segmentos da maravilhosa e diversificada fauna humana. É o elo invisível que o irmana a todos quantos por alguns instantes vêem, ouvem ou lêem sua vida ali refletida em sons, cores, formas e palavras.
Por isso, prezado e incógnito leitor, sem o qual meu texto não teria razão de existir, receba meu carinhoso e fraterno abraço de paz e gratidão. Por você valeu a pena ter aberto minha alma e soltado minha voz, ainda que rouca e capenga.
CIDINHA BARACAT