Poesias

PONTO DE FUGA

14/05/2010


P  O  N  T  O    D  E    F  U  G  A

 

 

        Sempre que visito a cidadezinha onde nasci, procuro saudosamente encontrar nela o cenário de minhas vivências infantis e adolescentes. Esforço inútil! O que busco não está mais lá. O que falta, se tudo parece tão igual? Falta o olhar e o sentir da menina e da mocinha, seu jeito particular de ver e de sonhar a vida. Sou eu a grande ausente.

        A infância revisitada e reinventada com as cores da fantasia representa um ponto de equilíbrio para as inquietações do eu, uma válvula de escape para as agruras da vida cotidiana. A sensação de perda que a todos nós atinge, esse desejo de reencontrar-se no que ficou para trás tem motivado belas criações literárias. Está no “Paraíso Perdido”, de Milton, é o tema de Proust no “Em busca do tempo perdido”, e em tantos outros que transformaram essa tentativa frustrada em versos imorredouros, como estes, de Casimiro de Abreu: “Oh! Que saudades que tenho / Da aurora da minha vida, / da minha infância querida/ Que os anos não trazem mais!”

        Cecília Meireles, no poema “Retrato”, cria este verso genial: “Em que espelho ficou perdida a minha face?” O poeta português Mário de Sá Carneiro, num desses momentos de perplexidade diante da vida, desabafa: “Perdi-me dentro de mim / Porque eu era labirinto/ E hoje, quando me sinto/ É com saudade de mim.” O nosso doce “Poeta do Pantanal”,  Manoel de Barros,  assim retrata a sombra da infância se projetando no adulto: “Remexo com um pedacinho de arame nas minhas memórias fósseis/ Tem por lá um menino a brincar no terreiro/ Puxava por um barbante sujo e umas latas tristes./O menino hoje é um homem douto que trata com física quântica/ Mas tem nostalgia das latas.”

            Machado de Assis não ficou imune a essa vontade de fugir do presente e refugiar-se nas reminiscências; deixou registrados, entre outros, dois grandes momentos dessa incansável busca. Um deles, primor de metalinguagem, está no “Soneto de Natal”, no qual um homem procura deixar escritas as lembranças do Natal de sua infância, escolhendo, para tanto, a forma de soneto. Como não consegue realizar seu intento, termina assim seu poema: “Mudaria o Natal ou mudei eu?” O outro está em “Dom Casmurro”, nas palavras de Bentinho: “O meu fim evidente era atar as duas pontas da vida, e restaurar na velhice a adolescência. Pois, senhor, não consegui recompor o que foi nem o que fui. Em tudo, se o rosto é igual, a fisionomia é diferente. Se só me faltassem os outros, vá; um homem consola-se mais ou menos das pessoas que perde; mas falto eu mesmo, e esta lacuna é tudo”.

            A tentativa de preencher essa lacuna impreenchível, de reencontrar o mágico e indefinível encanto do que já não temos nem somos é que nos impulsiona na interminável busca que dá sentido à vida.                                                                     

CIDINHA BARACAT

©2007 - Copyright CCCB - Centro de Comunicação Cidinha Baracat
Rua Chiquita Fernandes, 574 - Bairro Bandeiras - CEP 16015-485 - Araçatuba-SP | Fones: (18)3623-9909/3622-5509
Desenvolvido por: pottato Jornalista responsável: Fernando Lemos